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| O ator Domingos Montagner em "O Bravo retumbante" |
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Ideias por trás do Brado retumbante
Interessante a série que a Rede Globo trouxe na última semana, O Brado Retumbante. Trata-se de uma ficção sobre um político brasileiro que preside a Câmara dos deputados e que da noite pro dia - com a morte acidental do presidente e do vice - assume a presidência da República. A capital federal volta a ser a velha capi, o Rio, e o ator, que é a cara do Aécio Neves, vive o drama de ser pressionado por todos os lados. O tio quer um cargo, a esposa desconfia de tudo, os senadores e ministros chantageiam, a filha tem sérios problemas psiquiátricos. Até a mãe dele é uma megera. A Globo não economizou nas paródias de fatos recentes que poluíram nossa República: malas de dinheiro, grampos telefônicos derrubando ministros, casos amorosos extraconjugais entre políticos e esposas de outros, ganância, disputa de cargos, nepotismo, jornalistas frenéticos.
Os criadores da série parecem querer pintar o chefe da nação com cores honestas, apesar da pressão. Mas uma coisa chama atenção na história: a venda de ideias polêmicas na perigosa forma de dramaturgia. No penúltimo episódio, a primeira-dama desmascara uma rede corrupta no Ministério da Educação. Uma velha amiga que se diz comunista está faturando milhões com um livro que a pasta adotou nas escolas. A mulher do presidente dá uma reprimenda na oportunista com um discurso mais ou menos assim: "como a senhora escreve um livro desses, dizendo que existem jeitos de falar o português, que não existe erro na fala, que dizer algo do tipo é preconceito linguístico?". O caso obviamente retrata uma recente polêmica que houve no MEC com um livro didático que recomendava exatamente isso: não recriminar a fala gramaticalmente incorreta das crianças com o risco de incorrer em preconceito linguístico. Na época, a própria Globo amplificou o caso, posicionando-se firmemente contra o texto e sua autora. Nos editoriais, o ataque era mais direto. Tratamos do assunto na Univesp TV em um programa chamado Norma culta e variedades linguísticas (assista abaixo). Conversamos com diversos linguistas, alguns dos mais importantes do país, e constatamos que a ideia reproduzida tanto na TV quanto nos grandes jornais não era tão justa assim. Infelizmente, a interpretação grotesca parece ter sido fruto da eterna pressa da imprensa em querer transformar o açúcar em afeto e com isso vender mais e mais facilmente. Não era o caso. O texto foi mal interpretado e a opinião pública caiu de boca no ministério. Incrível que meses depois o assunto volta à tona, de maneira agressiva, na forma de novela. Depois de se posicionar editorialmente, a Globo inseriu, numa clara tentativa de manipulação do pensamento, a ideia que estava no livro do MEC na figura do bandido. Vale a pena prestar atenção nessas coisas.
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