terça-feira, 6 de julho de 2010
Bombeiro incendiário
Faço aqui uma mea culpa. Ou será melhor assumir cumplicidade total? Estamos debatendo há alguns meses e nos últimos três debates do programa 2 Contra 2 a crítica que Pierre Bourdieu fez ao jornalismo televisivo. Em muitos momentos, discordamos parcialmente dele, encontramos generalizações. Mas em outros é como se o texto do sociólogo francês caísse como uma bomba na nossa consciência. Quem já participou de grandes coberturas sabe do que estou falando. O caso da menina Isabella Nardoni e o da menina Eloá, por exemplo. Nessas situações, nós, jornalistas - de todos os meios, não só da televisão -, atuamos como fantoches da audiência. No SBT, quando os casos aconteceram, houve edições do telejornal nas quais só falamos disso. Todos os repórteres estavam voltados para os casos, explorando até a última gota do sensacionalismo. Em determinado momento, o chefe de redação propôs louvavelmente que avaliássemos a nossa cobertura em um fórum na intranet. A primeira opinião foi de uma repórter, elogiando o desempenho da equipe e dizendo que tínhamos dado o sangue. Não resisti: escrevi dizendo que perdemos a oportunidade única de ficarmos calados, de evitarmos a covardia e de sermos o único telejornal diferente do Brasil. Evocava o jornalismo de verdade, o jornalismo necessário. Não houve mais respostas senão um tímido comentário elogiando a minha coragem. Senti-me como um bombeiro incendiário em crise. E solitário.
Acontece também que os jornalistas, na falta de manter a distância necessária à reflexão, desempenhem o papel de bombeiro incendiário. Eles podem contribuir para criar o acontecimento, pondo em evidência uma notícia (um assassinato de um jovem francês por um outro jovem igualmente francês mas “de origem africana”), para em seguida denunciar os que vêm pôr lenha na fogueira que eles próprios acenderam, isto é, a Frente Nacional, que, evidentemente, explora ou tenta explorar a “emoção despertada pelo acontecimento”, como dizem os próprios jornais que a criaram ao colocá-lo na primeira página, ao repisá-lo no início de todos os jornais televisivos etc.; e que em seguida podem garantir para si uma vantagem de virtude, de bela alma humanista, denunciando com grande clamor e condenando sentenciosamente a intervenção racista daquilo que eles contribuíram para produzir e a que continuam a oferecer seus mais belos instrumentos de manipulação.
Pierre Bourdieu em Sobre a Televisão (Jorge Zahar Editor, págs 92-93)
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ótimo!
ResponderExcluirIsso me faz pensar, leigamente, no que devem ter sentido (numa outra proporção, claro) os fotojornalistas do Bang Bang Club, depois que a poeira do sucesso e da comoção popular, provocada pelo impacto de suas imagens feitas na África, baixou...
ResponderExcluirbjs.
Solange
Adorei teu espaço, Fábio. Prometo vir mais vezes - especialmente num momento em que tenho questionado muito se quero continuar no jornalismo. Podem chamar de ingenuidade, mas não abro mão dos meus valores e o que mais tem acontecido é ver o quanto nós, jornalistas, tornamo-nos presas fáceis dos que não conhecem a ética, a proteção das fontes. Virei mais vezes e parabéns por sua coragem! Lorena.
ResponderExcluirFá,
ResponderExcluiressa é a primeira vez que entro no seu blog... Como historiadora que sou (acostumada com os papéis amarelados e traças de arquivo) faz pouco tempo que me rendi à essa ferramenta, este tal de blog... Mas já te parabenizo pela iniciativa!
Novamente evocando a minha profissão (sim, agora nós historiadores temos uma profissão!!), sempre tive uma relação controversa com o jornalismo. Por um lado, certo facínio com a facilidade que o jornalista se utiliza da palavra, falada ou escrita, pra se fazer entender nos mais diversos cantos. Por outro, a banalidade com a qual a mesma palavra é utilizada me deixa profundamente preocupada. Considero sim, que falta olhar crítico aos jornalistas (como para boa parte dos profissionais atuais). A questão é que, pela própria natureza das coisas, os jornalistas estão e são mais expostos...Acho que está mais do que na hora de fazer dessa pseudo fraqueza, ou das amplas possibilidades, uma ferramenta de mudança (de fato e de direito)...